verde-oliva

Sacoleja o ônibus todo no asfalto irregular da Faria Lima. Prefeitura de merda. Precisava estudar para a prova de ______ mas no ônibus lotado não havia lugar para me sentar. Tanto faz. Não ia dar pra estudar mesmo com toda essa tremedeira. Me agarro forte a uma das colunas de apoio para não cair. Pela janela, uma tênue tela verde oculta metade de um edifício enquanto três funcionários em azul penduram-se no andaime e conversam olhando a avenida abaixo. Final do expediente. O irritante buzinar dos motoboys é a única evidência de mobilidade nas proximidades. Sinto o suor escorrendo pela lateral de meu rosto, descendo vagarosamente pelo pescoço até ser absorvido pela gola da camiseta. O ar abafado do interior do ônibus, somado ao calor intenso de um verão sem brisa e ao empurra-empurra da lotação gera desconforto extremo. Desconforto é pouco. Isso aqui é a descrição do inferno. Faz dois dias que durmo mal e porcamente. Final de semestre. Abstraia.

Abro os olhos, cabeça contra o vidro do carro. Lá fora, a serra desliza verdejante, pontilhada de manacás em flor. “Você quer água?”, pergunta mamãe. A promessa da praia.

“[...] pra ganhar seu coração, você é raio de saudade meteoro da paixão [...]”. Puta que pariu. Será que já não basta o calor? Procuro com os olhos o dono do rádio que havia interrompido a tentativa de minha memória de resgatar o pouco de sanidade que me resta e me levar para longe daqui. Porra (!); será que agora é impossível entrar no ônibus sem fazer parte da trilha sonora de algum infeliz? Hoje sertanejo, ontem funk, amanhã deus-sabe-o-quê… Aliás, são estes momentos que me fazem duvidar da existência de Deus. Se eu fosse Ele, o dono do rádio já teria sido fulminado a essa hora. Mas vai que Ele gosta de sertanejo… Continuo procurando em meio às trocentas cabeças pelo dono do rádio na fútil esperança de que ele desligue o aparelho ao ser fuzilado por meus olhos.

O ônibus move-se alguns metros aproveitando o vácuo deixado pelo semáforo fechado que acabou de abrir. Continue reading

hipoteticamente

A claridade fluorescente da sala de aula expõe cada pequena mancha em minha camisa branca, encardida pelo tempo. Sinto-me nu e apenas o burburinho da conversa no corredor consegue me distrair do frio que começa a se arrastar sobre minha pele, começando pelas extremidades e se espalhando pelas articulações e os músculos, até chegar ao peito. Sinto-o mesmo é em meus lábios, a devorar-me com fervor mordaz. O frio expõe minhas entranhas para que todos as observem, mas percebo apenas as manchas na camisa e o burburinho no corredor.

Quisera eu que teus também gélidos lábios encontrassem os meus e frio não mais seria o peito, os músculos e as articulações. Então, não importariam as manchas, pois minha nudez seria menos crua que a que agora sinto e a possessão mútua de nossos corpos calaria o burburinho.

Mas, se quero, não o queres. Se não quero, aí o queres. Maldito querer esse que não se pode realizar pela falta do querer. Fôssemos menos humanos – menos divinos, diria – a força do nosso querer ofuscaria a claridade fluorescente da sala e exporia a vergonha de nossa nudez. E o frio… (Ah,) o frio não mais existiria, e silencioso seria o corredor.

bifurcação

A estranheza da semana me é incompreensível. Mudei eu ou mudou o mundo? Fosse o mundo, as coisas teriam perdido o sentido. Mudei eu, as ressignifico. O soar das cordas do violão preenche o vazio da incerteza e o silêncio da noite. Me vejo como fora de mim, a nadar na piscina, fascinado com o azul brilhante dos azulejos sob o céu escuro e com a água a (des)cobrir cada parte do meu corpo. Descobre coisas que já não me pertencem e fazem parte de um outro eu. Um eu que está além do ansioso batuque dos dedos na perna, além do azulejo molhado da piscina, além dos olhos castanhos e do sorriso voluptuoso da insegurança.

Onde foi que me perdi?

paradoxo

a impossibilidade excita.
a possibilidade assusta.

o filho do pai

a mãe. é sempre a mãe e o filho família toda reunida no altar. filho ao centro, de branco. padre à volta. mãe ao centro. foto de família. sorriso, choro, esperança. abaixa a criança o filho é o centro e a mãe. acima outra mãe por todos os lados. pinturas, vitrais, souvenirs. mãe dos navegantes, das dores, dos pobres do brasil. nos braços o bebê prematuro, adulto. o menino, inda nenê, já carrega no rosto o estigma da morte, da redenção e do juízo. mas a mãe…

foi-ce

O último dia é aquele em que as coisas adquirem sentido: a água do chuveiro escorrendo sem pudores pelo corpo, o longo intervalo entre o apertar do botão e a chegada do elevador, o discurso vazio do futebol na padaria enquanto o pão na chapa e o pingado não vêm.

No último dia, a complacência perdoa os trens lotados, o sol aquece a rua e os carros no elevado. Nas bancas, as manchetes revelam o desenrolar daquele caso que todos conhecem mas ninguém se importa. Nem com a última trama da novela sem fim.

Foi no último dia que fui pro trabalho, trabalhei com responsabilidade, descansei com preguiça, contei piadas, ri com todos e fui embora.
Não mais voltei.

Não sei se fui eu ou se foi o mundo.

edifício quatiara

Entre as esguias torres me deito envolto em céu e vento. Vento frio de inverno que carrega o mundo: a vida que se vai co’a sirene, o passar-correr dos carros, o fechar das janelas acima. Fecham-se com ruídos, abrem-se com luz.
Abaixo, no escuro, prendo-me ao presente sem pensar no que já foi, sem saber (querer) o que será. Acima uma silhueta contra a luz acende um cigarro e observa calmamente a cidade ao anoitecer. Mas não vejo a cidade, só o céu e suas janelas. São seus pensamentos meus?, fantasio. Mas sou menor do que as torres, o mundo, o céu.

***

Abro os olhos pela manhã, quarto já claro. Da cama, assisto abaixo aos garis varrerem a rua. Levanto. Entre o ferver do leite e a colher de café, observo o espectro morno da luz da manhã refletido na parede de tijolinhos do prédio ao lado. É sábado e, em uma das janelas, um gato assiste preguiçosamente a pomba branca que voa rumo ao alto.

moleque jesus

morreu no corcovado
de braços abertos para o rio,
simulacro de um maior
talhado em pedra fria
e de um outro que lembrou-se
lá do alto o esquecia.

pombos

casas abandonadas,
geminadas, de paredes
cinzas e reboco quebrado.
casas tristes e vazias
como a alma nua que
por hora é minha e que,
como os pombos, vai de
um canto ao outro
sem dono.

pasárgada

(com a os perdões de manuel bandeira e gonçalves dias)

sonhei que estava em beirute
e corria pelas ruas estreitas
com suas casas otomanas
de pedras seculares.

andava entre os prédios
de cortinas listradas, coloridas
sob os fios que se cruzavam
logo acima de mim.
o bairro armênio.

vou-me embora pra beirute.
lá é a minha pasárgada
lá subirei os morros
andarei as pontes
comerei sorvete
tomarei banhos de mar.

e se me cansar
voltarei pro meu quarto
subirei até o terraço
assistirei ao pôr-do-sol.

se ainda assim eu me cansar
calmamente abrirei os olhos
sentarei na minha cama
e voltarei ao meu brasil
a terra das palmeiras
onde canta o sabiá.