O cheiro de água salgada carregado pelo vento que vem da costa. Estou chegando. Minha memória divaga e posso sentir mais uma vez todo o joie de vivre causado pelas mais diversas sensações, aromas,e texturas que vêm à minha mente: O calor do sol da manhã sobre a pele. Mais do que apenas a brisa trazendo o aroma do mar, posso ouvir o som das ondas quebrando na praia. A luz da manhã enchendo a casa. A aspereza quase suave da areia entre meus dedos… Mas ainda não cheguei. A memória se dissipa e eu me concentro no caminho à frente.
Atravesso o estreito que separa a ilha do continente. Imagino como seria estar no mar abaixo, acariciado pelo vento que forma pequenas ondulações na superfície da água. À frente, a cidade me lembra milhares de agulhas emergindo da terra ao redor dos morros. Rio internamente ao notar que, contrariando a impressão que tenho de que o mercado municipal é a apoteose amarela, a luz do sol da tarde sobre o prédio consegue intensificar ainda mais a cor do edifício. Mas não é a cidade que me interessa.
Sigo em direção ao sul da ilha por uma rua estreita, curvilínea, ladeada de pequenas casas e cruzada por outras milhares de ruas tão estreitas e curvilíneas quanto esta, herança da colonização açoriana. Posso enxergar, mais abaixo, invadindo um espaço antes reclamado pelo mar, a larga via expressa construída pelo governo a fim de aliviar o trânsito nas vielas que permeiam a costa interior da ilha e conduzir os turistas mais rapidamente a seus destinos. Mas a rapidez ou a superficialidade oferecida pela nova avenida não me atraem; pelo contrário, procuro absorver cada talhe das construções, cada forma na paisagem, cada expressão do local, como se para imprimi-los em minha mente.
Dirijo-me ao interior da ilha. Extensos campos, desprovidos de árvores, conferem um tom verde-claro à paisagem, pontilhada apenas por algumas poucas casas coloridas, aqui e ali. Outras parecem ainda querer escalar os morros, onde a pastagem ainda não se aventurou. Pequenas valetas e lagos preenchidos com uma água de cor escura revelam que esses campos foram, outrora, um pântano ou um mangue, hoje drenado com o objetivo de suprir as necessidades humanas (seriam tão necessárias assim?).
Um zunido denuncia o aumento da presença humana, com todos os seus ruídos. A ruela volta a cercar-se de casas e pequenas lojas. Percorro esse labirinto para finalmente poder ver o mar aberto. Cheguei à parte exterior da costa. Meus olhos relaxam procurando o horizonte na imensidão de água à minha frente. Passo por várias vilas e praias, mas não é a elas que vou. A certo ponto, o mar azul encontra o morro, e a estrada, com dificuldade, se apóia no rochedo, como um fio tênue a separar a água da terra. Posso ouvir o ribombar das ondas contra o penhasco. Estou quase lá. Um sentimento de nostalgia toma conta de mim ao poder respirar os ares daquela vila de pescadores que frequento, quase todo verão, desde minha infância. Começo a sentir como se já fizesse parte de tudo aquilo, desde o começo.
Do meu lado direito, pequenas servidões (ruas muito estreitas que adentram terrenos que antes eram uma só propriedade) sobem os morros, dando vista privilegiada às casas que se encontram ao fim delas. Entro em uma dessas ruas. Paro em frente a uma casa. Desço do carro e, intuitivamente começo a caminhar até a praia, como se não fosse mais a minha vontade que dirigisse minhas ações.
A caminhada até dura cerca de dez minutos, por ruas ladeadas de sete-copas e outras árvores. Passo em frente de várias pequenas lojas e pousadas. Vejo casas antigas, com quintais de tamanho considerável; outras, mais novas, têm um quintal menor. Uma delas exibe alguns ossos de baleia na frente, indicando a atividade econômica que provia a sobrevivência da comunidade no passado. Avisto, no final da rua, a pequena capela, branca e amarela, construída em 1772, que parece estar inabalavelmente olhando para a praia. Caminho em direção a ela e posso ver o mar. Sinto-me como se eu também tivesse visto os pescadores recolherem suas redes dos barcos todas as manhãs, desde os tempos mais remotos.
Desço as escadas que levam à praia. Descalço-me. Agora posso sentir a areia sob meus pés. Começo a caminhar pela praia e a observar os montes que a cercam. Sobre um deles, numa das extremidades da praia, é possível ver um monastério placidamente voltado para o mar. Na outra extremidade, um pequeno canal e uma ilhota, acessível a pé somente quando a maré não está alta ou por uma passarela construída recentemente, são os únicos acidentes geográficos que separam esta da próxima praia.
Começo a andar em direção à ilhota. Vejo os barcos coloridos dos pescadores parados na areia esperando até a noite, quando serão utilizados para prover pão aos moradores da vila. Alguns outros barcos, ancorados na praia, balançam de leve acompanhando as ondulações na água.
A areia já não é abundante, devido a uma grama rala, mas verdejante, que cobre toda a superfície da ilhota. Alguns arbustos e árvores dividem a paisagem com rochedos que parecem brotar da terra. Na parte mais baixa da ilhota, dois trapiches provêem ancoradouro para as escunas que levam, diariamente, turistas a uma ilha não muito distante dali. A partir da ilhota, é possível ver a praia em toda a sua extensão. Sento-me em um dos penedos e começo a observar a praia ao longe. Sinto a brisa no meu rosto. Ouço as gaivotas brigando pelos peixes deixados na praia pelos pescadores. Ouço também, como um murmúrio na distância, o som de meninos jogando futebol na areia e o quebrar das ondas nas rochas. Mais perto de mim, nos trapiches, um barco deixa os turistas após um dia de sol na ilha. A luz amarelada do sol sobre as casas parece criar um halo sobre a vila. A torre da capela sobressai-se sobre os telhados. Algumas sete-copas, mais altas do que as casas, também ganham destaque na paisagem. Penso em levantar-me e voltar para a casa que aluguei para as férias, mas me sinto tão bem onde estou que poderia ficar aqui para sempre.
Lá na praia, vejo a silhueta dos surfistas, quase que reduzidas a pontos pela distância, carregando suas pranchas no braço ao voltarem para casa. Aos poucos a praia vai ficando vazia. A luz do sol deixou de ser amarelada, e está quase vermelha. Uma ou duas estrelas parecem querer apressar o fim do dia. As luzes se acendem nos postes, nas casas, nos restaurantes. A noite cai e eu permaneço aqui. Sinto as ondas que, incessantemente batem na praia. A lua, no alto, parece sorrir ao ver seu reflexo sobre mim.
Noto que não mais vejo a praia. Agora, sou a praia.
1 Comment
March 29, 2009 at 18:11
wow! esse texto é tipo.. tipo… tipo “wow”!
ps: desculpe pela dificuldade de expressão