O salão estava cheio. A nata da sociedade londrina estava presente no evento. Podia-se ouvir o burburinho do público especulando qual seria o tema da apresentação daquela noite. Todos ali haviam recebido um convite especial para o evento, realizado por uma companhia não muito conhecida no país. Ninguém realmente sabia do que se tratava, mas podiam imaginar que seria o lançamento de alguma nova invenção, e isso os deixava muito empolgados, pois gostavam de estar informados sobre as nascentes tecnologias que mudariam o mundo, naquele otimista século XIX. De repente todos se ajeitaram em seus lugares, pois o mestre-de-cerimônias havia acabado de sair detrás da cortina, e começado seu discurso.
“Boa noite senhoras e senhores! É um prazer tê-los aqui nesta agradável noite. Vocês poderiam estar em qualquer outro lugar, mas escolheram vir até aqui, e esperamos que todas as suas expectativas sejam satisfeitas. Algum tempo atrás nossa companhia enviou para vocês um convite especial para este evento,e hoje queremos oferecer-lhes em primeira mão a oportunidade de conhecer um produto que irá revolucionar a maneira que seus filhos tomam banho”. Todos se olharam com um ar, de certa forma, estupefato. A senhoras, em seus longos vestidos, começaram a se abanar nervosamente com seus leques. O mestre-de-cerimônias continuou. “Com certeza, a partir de hoje, será muito mais fácil banhar suas crianças. Não mais choro. Não mais crianças fugindo molhadas pela casa encharcando os tapetes persas que tanto lhes custaram. Ao contrário, elas terão prazer em tomar banho, pois será para elas demasiado divertido”. Houve uma pausa; era possível ouvir alguns senhores tossindo discretamente.
“Esse novo produto desenvolvido por nossa companhia envolveu a pesquisa de uma nova forma de produção, a fim de lidar com um material que faz poucas décadas se percebeu ser de grande utilidade para a indústria de nosso país. Esse material de que falo, a borracha, de fato, abriu novas possibilidades na indústria, dentre as quais a que eu lhes apresentarei. É necessário salientar que a borracha que usamos é da mais alta qualidade, selecionada e importada especialmente da exótica floresta tropical brasileira pela nossa empresa, com a finalidade de garantir maior durabilidade.” As senhoras começaram a abanar seus leques ainda mais rapidamente.
“Vocês devem ter notado”, continuou, “que aqui à frente há um volume coberto por um pano branco, que eu agora terei o prazer de lhes revelar o conteúdo”. De fato, algum tempo atrás alguns funcionários haviam empurrado um volume de tamanho considerável para o meio do palco; quatro homens haviam sido necessários para tal tarefa. O mestre-de-cerimônias deu alguns passos até objeto coberto e parou, como se para aumentar o suspense. Chamou dois funcionários que rapidamente removeram o lençol branco. O salão se encheu de espanto. Os homens faziam comentários entre si. As mulheres que ainda podiam abanar seus leques mais rápido, o fizeram. Uma ou duas desmaiaram.
O objeto era muito menor do que pensavam. Quase não dava para vê-lo à distância. O lençol, na realidade, estava cobrindo uma banheira cheia de água, e dentro dela boiava, placidamente, o motivo de todos estarem naquele salão. No meio da banheira boiava, impávido, desafiando os raciocínios mais complexos, um patinho de borracha amarelo.