O último dia é aquele em que as coisas adquirem sentido: a água do chuveiro escorrendo sem pudores pelo corpo, o longo intervalo entre o apertar do botão e a chegada do elevador, o discurso vazio do futebol na padaria enquanto o pão na chapa e o pingado não vêm.
No último dia, a complacência perdoa os trens lotados, o sol aquece a rua e os carros no elevado. Nas bancas, as manchetes revelam o desenrolar daquele caso que todos conhecem mas ninguém se importa. Nem com a última trama da novela sem fim.
Foi no último dia que fui pro trabalho, trabalhei com responsabilidade, descansei com preguiça, contei piadas, ri com todos e fui embora.
Não mais voltei.
Não sei se fui eu ou se foi o mundo.
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