A claridade fluorescente da sala de aula expõe cada pequena mancha em minha camisa branca, encardida pelo tempo. Sinto-me nu e apenas o burburinho da conversa no corredor consegue me distrair do frio que começa a se arrastar sobre minha pele, começando pelas extremidades e se espalhando pelas articulações e os músculos, até chegar ao peito. Sinto-o mesmo é em meus lábios, a devorar-me com fervor mordaz. O frio expõe minhas entranhas para que todos as observem, mas percebo apenas as manchas na camisa e o burburinho no corredor.
Quisera eu que teus também gélidos lábios encontrassem os meus e frio não mais seria o peito, os músculos e as articulações. Então, não importariam as manchas, pois minha nudez seria menos crua que a que agora sinto e a possessão mútua de nossos corpos calaria o burburinho.
Mas, se quero, não o queres. Se não quero, aí o queres. Maldito querer esse que não se pode realizar pela falta do querer. Fôssemos menos humanos – menos divinos, diria – a força do nosso querer ofuscaria a claridade fluorescente da sala e exporia a vergonha de nossa nudez. E o frio… (Ah,) o frio não mais existiria, e silencioso seria o corredor.